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A paródia dos dicionários de nomes e, indiretamente, das enciclopédias e bestiários é a base de
O livro dos nomes, segundo volume de ficção (e décimo quarto livro) da escritora mineira
Maria Esther Maciel. Nele a autora, também professora de Teoria da Literatura e Literatura Comparada na Universidade Federal de Minas Gerais, explora como nunca o seu interesse por sistemas de ordenação e classificação do mundo, igualmente caros a escritores e artistas que já foram objeto de estudos seus na academia e influenciam sua produção literária, dentre os quais Jorge Luis Borges, Georges Perec e Peter Greenaway.
Híbrido de romance e conjunto de contos,
O livro dos nomes possui 26 capítulos, dispostos alfabeticamente de acordo com os nomes das personagens que lhes dão título e a quem são dedicados, de Antônio a Zenóbia (esta e a amiga Hildegarda remetendo a ficção anterior de Maria Esther,
O livro de Zenóbia, de 2004). Cada capítulo, por sua vez, desdobra-se em quatro breves relatos: retratos intensos de pessoas comuns do interior de Minas que, elaborados numa linguagem delicada, ligeiramente poética, e não raro anunciados pelo embuste nos verbetes onomásticos que lhes servem de introdução, dialogam entre si um cotidiano centrado nas vicissitudes do amor e da morte.
Além disso, visto que os capítulos são independentes uns dos outros e as personagens retratadas ali são ora protagonistas, ora coadjuvantes, a leitura de tal obra pode ser iniciada e prosseguida a partir de qualquer um deles, num convite à criação de nossa própria seqüência narrativa do livro de Maria Esther.
A entrevista a seguir, que a escritora concedeu por e-mail, teve como assunto principal O livro dos nomes.
Marcelo Bueno de Paula - O livro dos nomes deriva de seu conhecido interesse por sistemas de ordenação e classificação do mundo, esforços humanos que, em seu livro de ensaios A memória das coisas (2004)
você aponta serem, paradoxalmente, índices da desordem e impossibilidade de apreensão desse mesmo mundo. O seu último livro de ficção trabalha isso especialmente com a subversão de etimologias e a construção de personagens que contradizem o que seus nomes predestinam. Você crê que a literatura, e por extensão toda a arte, como tentativa de apreensão do mundo/ da existência, é também um exercício de fracasso?
Maria Esther Maciel - Eu diria que é porque sempre falha em sua tentativa de apreender o mundo e a existência de forma completa e satisfatória, que a literatura nos ensina mais do que imaginamos. A diferença entre ela e os sistemas legitimados de organização do mundo é que estes se arrogam um poder de controle sobre tudo, enquanto a literatura (e a arte, por extensão) assume suas próprias incertezas, sua precariedade e insuficiência diante da complexidade da vida. Daí que, paradoxalmente, a literatura acabe por dizer muito mais sobre as coisas, revelando quase sempre o que escapa às definições e classificações. Foi isso que tentei mostrar, por vias oblíquas, em O livro dos nomes.
MBP - Você usa como epígrafe a O livro dos nomes uma frase de J. M. Coetzee: "Quando a morte corta todos os laços, permanece o nome." (Trad. de Luiz R. M. Gonçalves) Comente essa permanência do nome.
MEM - O nome é, sem dúvida, o registro de nossa presença na terra. É ele que fica, enquanto inscrição. Sobrevive na memória das pessoas, nos epitáfios, nos documentos. Resguarda-nos do esquecimento.
MBP - Por que você optou por inventariar ficcionalmente pessoas comuns ao invés de existências célebres ou extraordinárias?
MEM - Lembro que Marcel Schwob, no prólogo ao seu livro Vidas imaginárias, já chamava a atenção para a avareza dos biógrafos que, ao suporem que só a vida das grandes personalidades podem nos interessar, dão-se o papel de historiadores e negligenciam a vida das pessoas comuns, discretas e anônimas, as quais podem ser tão ou mais interessantes que as das celebridades. Optei, assim, por focar essas pessoas comuns, seus dramas e as circunstâncias particulares que definem sua existência.
MBP - Durante muito tempo você se dedicou à poesia e ela está presente em sua prosa ficcional. Entretanto, em O livro dos nomes a carga poética diminuiu sensivelmente em relação a O livro de Zenóbia...
MEM - Isso, de fato, aconteceu. Percebo que minha escrita caminha, cada vez mais, para a prosa narrativa. Mas não deixei a poesia de lado. Ela ainda se faz presente em minha ficção através do ritmo, dos dizeres breves, da linguagem concentrada e imagética. Mesmo quando conto histórias, o registro poético incide, em maior ou menor intensidade, na minha escrita. Talvez isso se explique pelo fato de eu ter me dedicado, durante vários anos, à prática, à leitura e ao estudo da poesia. Com certeza, esse pendor ao poético está bem mais presente no meu livro de ficção anterior, O livro de Zenóbia. Já em O livro dos nomes, a pulsão narrativa é mais ostensiva, embora nele apareçam várias frases que se assemelham a versos. Os verbetes onomásticos que abrem os capítulos talvez sejam as partes mais "contaminadas" pela poesia, já que tive que me valer muito dos vôos criativos para inventar algumas etimologias para os nomes dos personagens, muitas vezes recorrendo à sonoridade das palavras e às sinestesias.
MBP - A sua ficção elege Patos de Minas, sua cidade natal, como topos literário. No seu caso, pintar a própria aldeia, além de ser uma busca pela universalidade, é uma forma de comprometer a ficção com a verdade?
MEM - Quando escolhi Patos de Minas como topos narrativo, pensei sobretudo na importância que essa cidade tem para o meu imaginário. Lá nasci, me constituí como sujeito, descobri a literatura, vivi experiências intensas, recolhi muitas histórias. O livro de Zenóbia já trata de uma personagem que vive em Patos (ou Pathos, como costumo grafar). Em O livro dos nomes, procurei explorar mais o cenário da cidade, seus encantos e contradições. Acho, que nesse sentido, meu gesto é uma tentativa de comprometimento da ficção com o que se chama de verdade. Além disso, Patos e outras cidades da região do Alto Paranaíba não são lugares muito enfocados na literatura mineira e brasileira, o que também me estimulou muito a elegê-las como referências geográficas de meu livro.
MBP - Tratando agora especificamente de seu nome, seu prenome verdadeiro é Maria Ester. Por que a mudança para o Esther, com h? O que este h significa para você?
MEM - Pois é, os nomes sempre me intrigaram, começando pelo meu, que é uma composição dos nomes de minhas duas avós, Maria e Esther. Quando meu pai foi me registrar no cartório, ele se esqueceu de acrescentar a letra h no nome Est(h)er, homenagem à minha avó materna. Minha mãe ficou chateada com isso e resolveu me ensinar a escrever o nome com h. Assim, desde criança, escrevo Esther com h, embora tenha que, burocraticamente, usar o Ester sem h nas assinaturas. Essa história do h sempre foi um nó, um impasse, para mim. Nem análise psicanalítica resolveu. Por isso assino meus textos e livros com Esther e os documentos oficiais com Ester. No meu livro de poesia
Triz, de 1998, incluí um poema que diz o seguinte: “É sina do meu nome/ deslizar conforme/ o tempo e o não-lugar:/ sem ponto certo/ oscilar, errante/ entre o final e o reticente/ confundir vogal/ e consoante/ beber na fonte/ a palavra/ que não há.” É isso.
Serviço
Maria Esther Maciel
Companhia das Letras, 2008
176 pág.
Trecho
“Quando pequena, Rita foi amiga de Sílvia. Eram quase irmãs, ainda que bastante diferentes. Uma tinha vindo de uma família sem nome; a outra, de uma linhagem insigne. E, por ter sido pobre, Rita sofreu da outra todas as humilhações possíveis. Contam, por exemplo, que aos oito anos teve pés e mãos atados pela amiga, depois de ser sentada num banco no fundo de uma casa em reforma, em meio a tábuas, tijolos e latas de tinta. Sílvia cobriu-a de areia até quase os ombros, como se quisesse dizer: ser cruel é a outra face da ternura.”
(Rita ou “Os olhos já não estão aqui”)
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Foto: Divulgação.
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